Hollywood e os estereótipos
- Davi Bicalho e Paulo Alfaro
- May 31, 2021
- 4 min read
Updated: May 31, 2021
Como a indústria de cinema dos Estados Unidos retrata nos filmes os países não desenvolvidos
O cinema é uma importante ferramenta de instrução, educação e reflexão, dada sua notoriedade e a possibilidade de “uso do entretenimento para um impacto positivo na sociedade e nas comunidades”, como explicou o especialista em cinema, Richard Williams (1993-2019), no seminário Advertising Week Europe, em 2017.
O alcance é tamanho que 87% dos brasileiros veem vídeos e filmes em plataformas semanalmente, segundo levantamento feito pela Nielsen Brasil, em 2020. Não à toa, o serviço de streaming Netflix já ultrapassou 200 milhões de assinantes em todo o mundo. Apesar do fenômeno de streaming que é hegemonia no mercado, as tradicionais salas de cinema seguem sendo objeto de investimento.
No último ano antes da pandemia de Coronavírus, em 2019, o Brasil registrou 3.500 salas, superando o recorde anterior, de 3.300, que persistia desde o fim dos anos 1970. Para se ter uma ideia de como a tradicional cultura de ir assistir um filme continua viva, cerca de 177 milhões telespectadores compareceram a esse tipo de evento no período, em dados levantados pelo Observatório Brasileiro de Cinema e Audiovisual.
Mas, afinal, colocada a popularidade da chamada sétima arte, que surgiu no final do século XIX, qual pode ser o impacto social proporcionado pela indústria cinematográfica a partir de estereótipos visuais, produção de mensagens e produção de significados?

Foto: Azimute
Sucesso Netflix - como chegou ao topo
Em abril de 2020, a Netflix lançou o filme “Resgate”, protagonizado por Chris Hemsworth. À época, o serviço de streaming divulgou de maneira inédita uma lista que revelava os 10 filmes originais mais vistos da plataforma, da qual o mencionado estava em primeiro lugar, superando 99 milhões de visualizações em dois meses de lançamento.
A história gira entorno de Tyler Rake, um mercenário contratado para resgatar o filho sequestrado do chefe de uma organização criminosa. Apesar do sucesso, a obra colocou em pauta uma discussão acerca da estereotipagem por meio de elementos óticos, a partir do cenário de Bangladesh, no sul da Ásia, local onde o menino está sequestrado.
Maior editora de viagens independente do mundo, o site Matador Network questionou a utilização do filtro amarelo, classificando-o como “desagradável” e estimulador de estereótipos sobre locais do oriente. Na teoria, essa cor tem a finalidade de representar lugares com um clima quente e seco - geralmente usados em cenários como o sudeste da Ásia, a África e a América Latina -, mas na prática pode levar outras sensações para quem assiste.
O filtro amarelo é apenas um entre diversos elementos não-verbais que produzem sentido, adequados na ideia de “estética”. Para entender no que consiste esse termo e sua importância numa obra, conversamos com o doutor em estética audiovisual pela Universidade de São Paulo (USP), Julio César Lobo, autor do livro "Cinema e sociedade no Brasil: análise de mensagens".
“Estética do cinema, grosso modo, é o conjunto de abordagens relativas aos modos com que a organização do filme ou da série televisiva produz sentido, principalmente através de elementos não-verbais. O difícil é conciliar uma análise estética (às vezes, tida maldosamente como "formalista") e uma análise do trabalho do social no filme”, explicou.
João César Lobo não acredita que o filtro possa reforçar algum tipo de preconceito e recorda que o elemento ótico também marca presença em filmes brasileiros desde o final do século XX. “Filmes brasileiros que usam esse tipo de filtro e em que não há nenhum tipo de estereotipagem: Cinema, Aspirina e Urubus (2005) Abril Despedaçado (2001) e Central do Brasil (1998)”, citou.

Foto: Universidade FM - Legenda: O ator Chris Hemsworth, no filme mais visto da plataforma
ESTEREÓTIPOS NO CINEMA BRASILEIRO
Mas e o cinema nacional? Será que a indústria brasileira usa de recursos audiovisuais para reforçar preconceitos por meio do estereótipo? Bom, pode ser que isso aconteça, seja de maneira intencional ou não.
Para isso, o cineasta Júlio César Lobo, em entrevista, ao ser questionado se existe algum valor, costume ou qualquer outro elemento cultural e social presente em nosso país que ele sente falta de ter uma maior abordagem em nosso cinema, diz que o audiovisual é um negócio e, hoje, altamente dependente de demandas de um público mais afeito aos temas e estilos narrativos da televisão.
Ele ainda afirma que se produz aquilo que se imagina que o público quer ver. Por exemplo, a violência nas grandes cidades, especialmente nas periferias.
Outro especialista no ramo, Gabriel Almeida diz que é de extrema importância que um cineasta, primeiramente, entenda muito bem da história que está contando. Ele afirma que, tendo isso em vista, algo muito crucial é a observação da região onde o filme vai ser filmado, buscando identificar elementos que podem ser de grande valia dentro das cenas, mas não apenas para o engrandecimento de sua obra, mas também para a valorização da cultura e dos costumes locais.
Gabriel ressalta que outro ponto muito importante também, é o buscar entender a vida rotineira dos habitantes: quais as suas dores? O que fazem? Como buscam resolver os seus problemas? Como é morar em tal lugar?
Portanto, segundo os especialistas, a indústria nacional busca, na maioria das vezes, atender as demandas de um público que não consome apenas cinema e que, quer ver no cinema, aquilo que outras mídias noticiam e retratam.
Porém, para que isso seja feito de maneira fidedigna, é preciso que o diretor tenha conhecimento de causa e que conheça muito bem a localidade e a rotina da mesma para que não cometa erros na retratação do cotidiano brasileiro, seja onde for.



Comments