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“Amor de Mãe” para além da dramaturgia

  • coolturaunibh
  • Jul 12, 2021
  • 5 min read

Novela da autora Manuela Dias mostra a outra face da adoção no Brasil

Por Tássio Santos e Thainá Alves


Não é de hoje que a novela brasileira vem abordando temas relevantes na ficção, desde a estreia da primeira telenovela “Sua Vida Me Pertence”, escrita por Walter Foster e que foi ao ar em 1951, pela extinta TV Tupi. Além dos clichês como romances que são cenas que precisam estar presentes nas novelas, autores sempre apostam em abordar temas sociais e que ajudam a romper estereótipos e preconceitos. Dão visibilidade para pautas importantes e que ajudam a sociedade a refletir.


Imagem: filmow/Reprodução

Se na década de 70, Walter Foster ousou a escrever uma cena na qual havia um beijo, ou melhor, o primeiro beijo na telenovela, no qual para aquela época era considerado um tabu e que gerou enormes discussões entre o público, outras gerações de autores vêm apostando cada vez mais em pautas relevantes e que precisam ser necessariamente discutidas. Assim fez a Autora Manoela Dias, que escreveu a novela das nove “Amor de Mãe” que foi ao ar em 2020 pela Rede Globo de Televisão.

Além de pautar assuntos como violência contra a mulher, tráfico de crianças, ameaças ao meio ambiente e sistema educacional, a adoção ganhou um espaço relevante na teledramaturgia. A personagem Vitória, vivida pela atriz (Taís Araújo), Lourdes (Regina Casé) e Thelma (Adriana Esteves), vivenciavam a adoção de maneira bem distinta, mas quem chamou a atenção durante todo o enredo foi Vitória (Taís Araújo), que tinha o sonho de ser mãe e após algumas tentativas de engravidar, conseguiu, mas infelizmente aos seis meses de gestação ela sofreu um aborto.

A partir dessa triste experiência, Vitória então decidiu terminar o seu relacionamento e adotar uma criança. Sim, pessoas solteiras podem adotar crianças. De acordo com o Código Civil brasileiro, todas as pessoas com mais de 18 anos podem adotar uma criança ou adolescente, a única restrição é que o adotado deve ser dezesseis anos mais novo que o adotante.


Adoção monoparental está cada vez mais comum no Brasil


A arte imitando a vida. A adoção por solteiros vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil, homens e mulheres que desejam ter filhos por adoção participam de todo o processo de forma normativa, sem nenhum empecilho para adotar, mas desde que sejam maiores de 18 anos e comprovem estabilidade familiar e financeira, isso de acordo com o Código Civil. A adoção monoparental é quando um único adulto adota uma criança ou adolescente, um exemplo desse tipo de adoção é caso do neuropsicopedagogo, Erasmo Coelho (39), pai solo e que há mais de um ano adotou Gustavo (12). Erasmo explicou sobre como surgiu o sonho de ser pai e sobre o seu processo de adoção.



Imagem: Erasmo Coelho/Divulgação

Eu sempre quis ser pai, sempre tive esse desejo comigo. Desde então, toda a minha vida eu falei que eu queria ter um filho e fui amadurecendo isso. Eu nunca tive a necessidade de ter um filho biológico, eu sempre dizia que queria ter um filho adotivo e sabia que ele estava em algum lugar esperando por mim. Em 2019 foi quando eu decidi adotar uma criança, fui ao fórum e dei entrada no meu processo. A habilitação saiu em torno de três meses e em 2020 foi quando eu finalmente conheci o Gustavo”- Disse.

A Constituição Cidadã de 1988, confere à família um amplo conceito, descortinando a visão estereotipada de que a família precisa ser formada por homem, mulher e filhos. Tanto um homem solteiro quanto uma mulher solteira, desde que respeitando os critérios do Código Civil brasileiro podem ser pais adotivos, a regra é igual para todas as pessoas. Durante o processo a pessoa deve procurar a Vara da Infância e Juventude de sua cidade para requerer a habilitação. Quanto aos requisitos que tornam a pessoa apta para adotar uma criança ou um adolescente, a advogada Familiarista, Flavia Arruda explica que além de um lar harmônico, a participação em grupos de preparação para adoção é obrigatória.

“O único requisito necessário para alguém estar apto a adotar é a vontade de ter um filho e a capacidade de dar um lar harmônico e equilibrado a esse filho, o que exige idoneidade moral, é claro. Nenhuma exigência é feita com relação à perfil econômico ou social. Como requisito objetivo, temos ainda a obrigatoriedade de participar de Grupos de Preparação para Adoção, os quais são geralmente oferecidos por Grupos de Apoio à Adoção, ou ainda pelo próprio Tribunal de Justiça”.- Explica.

O conceito de adoção também vem passando por mudanças, se antes a adoção era vista como um ato de caridade, hoje casais homo ou heteroafetivos, pais solos e mães solos ressignificam a adoção como um efeito de amor e afeto. A adoção é um instrumento de política pública, pois possibilita à criança e ao adolescente que não possui uma família, os direitos a infância, dignidade e qualidade de vida.


A influência da teledramaturgia para a sociedade


Devido a sua massiva audiência e penetração nos lares e na cultura brasileira, a telenovela influencia comportamentos e pensamentos, além de ajudar a oferecer informações que possam conscientizar a sociedade como um todo. Se para alguns, as novelas não passam de um produto televisivo apenas para entreter, já para outros, as novelas tem muito a ensinar. Para Thalita Raposo (21), assistir à novela “Amor de Mãe”, mostrou para ela a possibilidade de buscar mais informações sobre o sistema de adoção.



Imagem: Thalita Raposo/Divulgação

“Sou viciada em novelas, gosto de acompanhar e um dos meus momentos favoritos é quando eu sento e posso assistir minhas novelas. Me dá uma satisfação está ali acompanhando como os atores atuam e muito mais que isso, como eles interpretam os temas que estão acontecendo o tempo todo aqui na vida real. Eu sempre quis ser mãe e ver a Vitória (Taís Araújo) conseguindo adotar o seu filho que era um sonho para ela, foi como se a personagem batesse no meu ombro e dissesse para mim que é possível”- Disse.

Apesar das plataformas de streaming estarem ocupando cada vez mais espaço no meio digital, a televisão ainda continua sendo um dos meios de comunicação mais presentes no dia a dia das pessoas, e de forma periódica. A partir disso reforça a importância dos autores de novelas abordarem temas necessários como o sistema de adoção no Brasil, pois além de alertar e chamar a atenção, traz discussões para a sociedade sobre assuntos de seu interesse ou que venham a afetar sua vida ou modificar o seu dia a dia.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), quase 211 milhões de pessoas tem acesso a internet fixa ou móvel no país e mesmo com um número tão elevado, o índice de brasileiros com TV em casa ainda é superior. De acordo com o Ibope, cerca de 97% dos domicílios do país possuem pelo menos um aparelho. Se os usuários da internet somam 169 milhões, a TV alcança 207 milhões de pessoas, o que reforça a forte influência da TV e sua representatividade para o país.

Diante disso, abordar temas como a adoção em uma novela pode contribuir para que o cenário de mais de 30 mil crianças que segundo o Conselho Nacional de Adoção e Acolhimento, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), sofra mudanças positivas. Conforme explica o Doutor em Ciências da Comunicação na ECA/USP e especialista em teledramaturgia, Claudino Mayer.

Imagem: Claudino Mayer/Divulgação

“Tudo que é discutido na telenovela sofre um efeito para a sociedade. Qualquer coisa que é divulgado como a adoção e doação de sangue há um disparo muito grande. Porque quando a novela traz esses elementos, ela traz de uma maneira não didática, mas sim, de maneira compreensível. Ela te mostra a refletir dos dois lados. Nunca a novela irá contribuir para algo negativo”- Explicou.

Para Claudino Mayer, a novela “Amor de Mãe”, contribui para a sociedade quando fala da adoção de crianças, quando ela trata de questões de relações sociais. Para daqui uns dez anos, as pessoas irão refletir sobre a pandemia, porque a novela trouxe um dos reflexos do triste cenário da pandemia e das mudanças.


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