O legado de Paulo Gustavo
- coolturaunibh
- Jun 21, 2021
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Ator, vítima da covid-19, abriu caminho para importantes discussões sobre homoafetividade
Por: Napáuria Alves e Thayane Domingos

Quando falamos de filmes, séries e novelas, sempre existe um personagem que fica marcado por sua trajetória de vida e ações que a gente não esquece. Como é o caso de dona Hermínia no clássico “Minha mãe é uma peça 3", com direção de Susana Garcia e roteiro de Paulo Gustavo, que também interpreta a personagem principal. O filme trata da relação de uma mãe com os filhos que estão no processo de formação de suas famílias.
No último filme da trilogia de comédia, um dos temas abordados é o casamento do filho de dona Hermínia, Juliano, interpretado pelo ator Rodrigo Pandolfo, com uma pessoa do mesmo sexo. No roteiro, o ator Paulo Gustavo se baseou na própria história de vida, abordando a relação com a mãe e o seu casamento com o médico Thales Bretas.
Estreado em dezembro de 2019, o filme conquistou a maior bilheteria do cinema nacional, com 143,9 milhões de reais arrecadados. De forma leve e engraçada, a trama retrata a relação de uma família dentro do contexto de um casamento homoafetivo.
Aceitação da família
A nova forma de relação familiar, conhecida como família homoafetiva, surgiu pela necessidade de garantir o direito do indivíduo se relacionar com uma pessoa do mesmo sexo. Após essa mudança, se levantou um questionamento muito importante sobre a aceitação de casais homossexuais, casamento e um novo modelo familiar. Mesmo dentro de um um contexto de preconceito histórico, hoje, uma parte da população tem aceitado melhor as diferenças e as diversas formas de relacionamentos conjugais.
Trazer este assunto para o cinema se torna de extrema importância para quebrar os estereótipos impostos pela sociedade no campo da homoafetividade. E para que todos possam entender e respeitar a escolha de vida e os sentimentos das pessoas. A produção do filme “Minha mãe é uma peça” foi um marco para a teledramaturgia brasileira, ditando um novo modelo.

O artista, comediante e professor Frederico Dias, formado pela Escola de Belas Artes da UFMG, e que também faz parte da comunidade LGBTQIA+, é admirador dos trabalhos do ator Paulo Gustavo e relata sobre a importância do filme:
“Foi um grande passo porque Paulo Gustavo era muito militante, as mensagens dele sempre foram de amor e de igualdade. Ele sempre teve a maldade inteligente de colocar a arte dele em prol da diversidade e da pluralidade. Na cena do casamento, mesmo por não ter colocado a cena do beijo, isso chocou muito a comunidade LGBTQIA+. A ideia dele de não colocar a cena do beijo foi pensado que outras pessoas poderiam assistir. E com isso, ele recebeu críticas do público abordado na trama, mas atingiu, outras milhares de pessoas, de forma expressiva”, ressalta Frederico Dias.
Embora tenha causado polêmica, o filme se mostrou coeso e firme ao passar valores de fraternidade e sentimento familiar. A personagem Dona Hermínia sempre esteve ao lado do filho e apoiou sua decisão desde o começo. De acordo com Frederico Dias, essas cenas precisam ser naturais, pois a homossexualidade é uma coisa natural e tão antiga. “O filme tem uma forma didática com a questão da mãe, que é protetora dos filhos e abriu a porta para que possa mostrar que os gays têm sonhos em formarem suas famílias também”, indaga.
Desconstruindo figuras
O modelo de estereótipos, apresentado em muitos filmes, que retratam personagens gays de maneira comediante tem sido modificado aos poucos. Os dramaturgos tendiam a incorporar esses personagens, de maneira semelhante, para que o público captasse rapidamente a informação subentendida sobre sua opção sexual, estabelecendo um preconceito padrão. Segundo Frederico, estamos lidando com ficção, por mais que a televisão, cinema e teatro, apresentem temas sociais, ainda sim são ficção.
“Aí você tem o momento onde os autores desenvolvem personagens que estão dentro daqueles estereótipos, porque eles são rapidamente identificáveis. Um exemplo é o roqueiro, ao se questionar, certamente vai se lembrar de uma pessoa vestindo preto. Esse rótulo, no caso dos homossexuais, traz uma identificação mística e propiciando uma barreira, visto que a população ainda está em processo de aceitação da comunidade homoafetiva”, afirma.
Além da trama, dirigida pelo ator Paulo Gustavo, temos outros exemplos de produções não só no ramo cinematográfico, mas no campo de audiovisuais, em si, que possuem o papel de romper com os preconceitos no que diz respeito à homoafetividade como a produtora de vídeos de comédia “Porta dos fundos”, que traz esquetes muito críticas ligadas ao assunto. Essas produções são muito importantes para conscientizar a sociedade a respeito da formação familiar homoafetiva. Utiliza de uma linguagem leve, e ao mesmo tempo, extremamente direta e com poder de atingir um público grande e significativo. Percebemos que quanto mais debatido e ensinado, menos as gerações futuras se incomodaram com as diferenças de gêneros.
Dia do Orgulho LGBTQIA+
No próximo dia 28 de junho é comemorado o Dia Mundial do Orgulho Gay. Membros da comunidade LGBTQIA+ e simpatizantes saem às ruas para protestar e lembrar do movimento que teve origem em Nova Iorque, nos Estados Unidos, quando um grupo de amigos homoafetivos foram abordados por policiais que diziam estar combatendo crimes que feriam a ética e os bons costumes. No Brasil, o primeiro movimento surgiu em 1995 e já somos o país com o maior evento anual em comemoração à data no mundo.



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