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Cinema cura!

  • coolturaunibh
  • May 17, 2021
  • 8 min read

Updated: May 24, 2021

Entenda como o cinema atua na discussão sobre saúde mental, funcionando como instrumento de acesso ao tema e auxiliando no tratamento médico de pacientes


O cinema vem exercendo um importante papel na promoção da saúde mental. Além de possibilitarem o entretenimento, os filmes também trazem reflexões sobre diferentes temáticas da vida cotidiana, dentre elas, os transtornos mentais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que quase 1 bilhão de pessoas vivem com esse tipo de transtorno. Mas, afinal, o que é a saúde mental e quais os problemas que ela causa?


De acordo com a OMS, não há uma definição oficial, tampouco objetiva. Trata-se da maneira como um indivíduo reage às exigências, desafios e mudanças da vida e ao modo como harmoniza suas capacidades, ideias, emoções, desejos e ambições. Ou seja, saúde mental é um estado na qual a pessoa está bem para lidar com as situações do dia a dia.


Em 2014, os médicos que lidam com a saúde mental no Brasil criaram a campanha janeiro branco, que tem o intuito de conscientizar as pessoas para os problemas e impactos causados pelas doenças psicológicas. O intuito é incentivar as pessoas a cuidarem mais de si mesmas. O mês de janeiro foi escolhido para essa conscientização, justamente por ser um período em que as pessoas estão mais propensas a rever metas e objetivos para o restante do ano. Desse modo, o cuidado com a saúde mental se torna extremamente relevante para lidar com as questões da vida no restante do ano.


Fatores que podem prejudicar a saúde mental


As alterações no funcionamento da mente do indivíduo geram as doenças mentais. Estresse, genética, nutrição, incapacidade e exposição a perigos ambientais são alguns dos fatores que contribuem para a perda da saúde mental, causando os transtornos mentais.


“O que nos mantém à saúde mental (estabilizada) e o que também nos faz perdê-la é muito subjetivo, mas vamos pensar de modo muito generalista. Para algumas pessoas, trabalhar com carimbadas, ou seja, ficar apenas carimbando folhas, mantém a sua saúde mental, porque elas não têm interesse ou desejo por questões mais problemáticas. Para outras, no entanto, o carimbo é um sufoco, porque elas querem tá discutindo questões, tá na gestão de uma empresa. Ou seja, a qualidade da saúde mental está ligada, também, aos desejos da pessoa”, aponta Marcell Santos, psicólogo, psicanalista e mestre pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).


O papel do cinema no tratamento médico e no acesso ao tema


A sétima arte pode ser apontada como uma ferramenta para a disseminação da importância de cuidar da saúde mental. A temática está inserida nas histórias cinematográficas há anos, ganhando relevância nos últimos tempos.


“O motivo pelo qual o cinema tem focado mais nas doenças mentais tem a ver com a conscientização e sensibilização para as pessoas se tratarem, seja por parte dos cineastas, ou, até mesmo, pelo aumento dos transtornos mentais. O Brasil, por exemplo, é o país mais ansioso do mundo. Tanto no aumento de ansiedade quanto da depressão também”, acredita Flávia Fleury, psicóloga, psicoterapeuta, especialista em saúde mental e mestre em cinema.


Os filmes promovem ações de autoconhecimento e valorização à vida. “Eles permitem que você possa se identificar com o personagem, com a sua problemática, e pense: 'eu também tenho isso, ou o que ele passa eu também já passei de forma semelhante. Se foi resolvido procurando uma terapia, eu também posso resolver’, aponta Marcell.


A arte cinematográfica, também, leva a sociedade a refletir sobre o tema, compreendendo questões relativas aos problemas. Culturalmente, como esclarece o psicanalista, algumas pessoas ainda enxergam os transtornos mentais como ‘frescura’. “Ah tem depressão porque falta Deus; depressão porque não lava vasilha; você quer chamar atenção;” exemplifica. E, através dos filmes, elas são ensinadas que a doença existe, tem e precisa de tratamento. Ademais, ajuda a entender o jeito da pessoa diagnosticada, relacionando-se melhor com ela, ou então, ajuda identificar que alguém próximo, de acordo com os sintomas do personagem, pode ter um transtorno e orientá-la.


Além de conscientizar todo o mundo, o cinema pode ser utilizado como forma de tratamento. Flávia conta que nas terapias de transtornos mentais os filmes servem para ensinar os pacientes. "A gente indica filmes para o paciente aprender e conhecer melhor o seu transtorno e o tratamento, porque muitos podem ajudar”.


No entanto, a psicóloga ressalta a importância dos profissionais assistirem a obra antes da indicação. “O cinema representa os transtornos mentais de várias formas, por exemplo para divertir e/ou fazer suspense. Então nem sempre a maneira como o cinema aborda os transtornos mentais correspondem com os sintomas apresentados pelo paciente”, explica. "Ele tem um impacto muito grande, e a gente precisa ter noção e um certo cuidado com isso”, acrescenta o psicanalista.


Alguns filmes distorcem a abordagem psiquiátrica do transtorno mental, uma vez que eles têm o papel de entreter. Com o intuito de chamar a atenção dos espectadores, as longas-metragens colocam em prática certos exageros. O assunto é abordado em diversos gêneros cinematográficos, entre eles comédia, terror, drama, ação e ficção científica, nos quais abordam os impactos causados pelos problemas relacionados com a saúde mental. Porém, Flávia explica que é preciso tomar cuidado com alguns deles.


“Nos filmes, principalmente de terror, suspense e comédia, ou que se tem a intenção de provocar medo, ironia, ou ser engraçado, geralmente é necessário analisá-los, para verificar o que é puramente cinematográfico ou realidade, pois não retratam o transtorno mental de acordo como é. Já o estilo do drama, no entanto, é mais realista, próximo da verdade”, relata.


Apesar do cinema contribuir na promoção da saúde mental, ajudando no tratamento, sensibilizando o espectador e a sociedade, dando voz à causa e confrontando o preconceito, é preciso ter claro que o filme não é referência para diagnósticos. Significa dizer que uma representação da doença mental próxima da verdade não necessariamente será clinicamente igual ao que os pacientes sofrem.


“Os transtornos mentais são reproduzidos no cinema com a intenção de sensibilizar os telespectadores em alguma coisa. Então, quando olhamos para o personagem, devemos falar que ele tem traços e características - sem bater o martelo sobre as doenças. Alguns diagnósticos demoram mais tempo para serem definidos, e no cinema temos uma visão curta dos sintomas apresentados, que aqui fora é necessário mais tempo de análise”, explica a psicóloga.


O filme que provou em números o interesse público pelo tema


Sucesso em 2019, o filme “Coringa” abordou os dilemas da saúde mental e evidenciou não somente o alcance do cinema no acesso ao tema como o interesse de espectadores por esse universo. Não à toa, se tornou a 6ª maior bilheteria mundial de 2019 e o primeiro para maiores de 18 anos a ultrapassar a marca do US$1 bilhão em bilheteria, superando o lucro de todos os filmes da Marvel, segundo a Variety.


Mas, afinal, como se deu a narrativa sobre saúde mental em Coringa para tamanha repercussão em todo o mundo? Nós vamos percorrer a história da obra e trazer a análise dos nossos entrevistados, portanto, se você ainda não assistiu, fique atento aos spoilers.


Com ressalvas sobre os desdobramentos do personagem, que possui um intuito também ficcional, o filme retrata a vida de Arthur Fleck, um palhaço que trabalha em uma agência de talentos e, toda semana, precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus conhecidos problemas mentais.


Após ser demitido, Fleck reage mal à zoação de três homens em pleno metrô e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne (Brett Cullen) é seu maior representante, e causa uma reviravolta na sua vida.


“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”. Essa é uma das frases mais marcantes do filme, que te leva a compreender toda a história do personagem e como a sociedade lida com ele.


Logo no começo, é mostrada a violência que Arthur Fleck sofria, quando um grupo de adolescentes o agrediu enquanto trabalhava rodando placas na rua. Por conta disso, um amigo lhe dá uma arma, que, futuramente, é a causa da sua demissão. O filme não deixa claro qual o diagnóstico do Arthur, mas revela que ele tem uma doença que faz com que ria freneticamente, mesmo quando não havia motivos.


Arthur era o responsável pela casa, cuidava da mãe doente. Após a demissão, começa a transformação na sua vida. Ele presencia uma mulher sendo assediada dentro do metrô por três funcionários da empresa de Wayne. Por conta de sua doença, começa a rir descontroladamente, e os homens começam a maltratá-lo e a espancá-lo. Em um surto, Arthur mata os três homens com tiros.


Posteriormente, seu tratamento é interrompido. Ele fica sem acesso aos medicamentos e encontros com a assistente social, que o ajudavam a amenizar os sintomas de suas doenças. “E como vou conseguir meus remédios?”, questiona. Isso o afeta muito, pois não há nada que possa fazer para se tratar.


A psicóloga Flavia sugere uma das mensagens da obra a partir da falta de auxílio necessário a alguém com transtornos mentais: “O paciente que precisava de ajuda e não teve a ajuda necessária. Talvez isso fez com que o Arthur caminhasse para a via da loucura. Ele pede ajuda durante muito tempo, por vários momentos, e ele não tem o tratamento, devido a questão do corte de verbas por parte do governo. Então, ele não consegue o tratamento adequado.”


Ao longo do filme, ele se depara com situações que agravam o seu estado mental de saúde e modificam o seu comportamento. Após questionar Thomas Wayne sobre uma possível paternidade, descobre que sua mãe foi diagnosticada com um transtorno mental e que sua história, portanto, é bem diferente do que acredita. Arthur foi adotado e teve uma infância muito difícil. Apesar de não lembrar, sofria violências físicas e psicológicas pelos namorados da mãe.


“É muito possível que transtornos e problemas psíquicos sejam gerados nas suas relações infantis. Na infância construímos nosso caráter, que vai sendo modificado ao longo do tempo, e sempre a gente acessa as desgraças psíquicas infantis ... O nosso passado, o nosso movimento infantil, tudo aquilo que a gente vivenciou, é o que determina quem somos hoje. As nossas primeiras relações - como fomos tratados - é o que nos coloca na dimensão enquanto o que a gente vai responder pra cultura, pra sociedade”, afirma Marcell Santos.


Coringa, agora caracterizado, age em defesa dos maus tratos e zoações sofridos. Assim como aconteceu no metrô, ele mata a mãe e o ex-colega de trabalho, por acreditar que eles fizeram mal para ele. O colega que sempre lhe tratou bem, ele deixa ir embora. Além disso, ao participar de programa de humor, que havia zombado de uma cena de seu show de comédia, Arthur confessa o crime do metrô, explica sua história, a forma como era tratado pelas pessoas e dá uma aula de empatia. Devido a ignorância do apresentar, reflexo da sociedade, ele o mata.


“O filme Coringa foi muito polêmico, a gente pode chamar a atenção para isso. Por um lado, o filme pode aumentar o preconceito, no qual uma pessoa aparentemente normal pode se transformar naquilo que o personagem se transforma; por outro lado, ele pode otimizá-lo, apresentar que o personagem é assim porque ele sofreu muito”, aponta Flávia Fleury.


Conheça outros filmes


Se você gostou da relação do cinema com a saúde mental, segue abaixo a dica de três filmes que trouxemos sobre a temática.



Riley é uma garota divertida de 11 anos de idade que deve enfrentar mudanças importantes em sua vida quando seus pais decidem deixar a sua cidade natal. Dentro do seu cérebro, convivem várias emoções diferentes, como a Alegria, o Medo, a Raiva, o Nojinho e a Tristeza. A líder deles é a Alegria, que se esforça bastante para fazer com que a vida de Riley seja sempre feliz. Entretanto, uma confusão na sala sai de controle e faz com que ela e a Tristeza sejam expelidas para fora do local. Agora, elas precisam percorrer as várias ilhas existentes nos pensamentos de Riley para que possam retornar à sala de controle - e, enquanto isto não acontece, a vida da garota muda radicalmente.



Baseado em uma história real, o filme retrata a médica Nise da Silveira, que, em 1950, se recusou a seguir tendências locais no tratamento de pessoas com esquizofrenia em um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. Subjugada e isolada pelos colegas médicos, decide assumir o, então abandonado, setor de Terapia Ocupacional, onde dá início à uma revolução regida por amor, arte e loucura. E os resultados são inacreditáveis.



O enredo de Por Lugares Incríveis acompanha Violet Markey (Elle Fanning) e Theodore Finch (Justice Smith), que têm suas vidas transformadas para sempre quando se conhecem. Juntos, eles se apoiam para curar os estigmas emocionais e físicos que adquiriram no passado.


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