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Saudade do que a gente não viveu

  • coolturaunibh
  • May 3, 2021
  • 5 min read

A famosa frase de Neymar, que virou meme nas redes sociais, serve perfeitamente para ilustrar o Carnaval de rua de Belo Horizonte. Depois de viver um 2020 mágico, com recorde de público, a maior festa popular do Brasil precisou ser cancelada em todo o país, devido à pandemia do novo coronavírus.



Foliões em Belo Horizonte (Getty Images)


Belo Horizonte viveu o maior carnaval da história em 2020. Segundo dados da Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur) mais de 4,5 milhões de foliões curtiram o carnaval da cidade. Deste número, cerca de 211 mil foliões eram turistas. Kerison Lopes, fundador do Bloco Volta Belchior e diretor da Escola de Samba Cidade Jardim, acredita que o jeito mineiro e o multiculturalismo que existe no estado influenciaram os visitantes a escolherem BH para curtir o carnaval. “O mineiro é muito diferente. Somos muito acolhedores e receptivos. É um povo culturalmente muito rico, uma mistura de cultura em Minas. Essa mistura de cultura atrai muitos”. Além disso, Kerison acredita que o carnaval de rua atrai por ser acessível, financeiramente falando. “É um carnaval barato. As pessoas não pagam ingressos e outras coisas”, lembra.

Já para Aricelli Alcântara, produtora do bloco Afro Angola Janga, a segurança proporcionada pelo carnaval mineiro é um diferencial em relação aos demais. “É um carnaval mais tranquilo se comparado a outras regiões do país, com um perfil familiar, com conteúdos de todas as idades. Esses fatores o tornam mais seguro em relação aos demais”, conta.


Foto: Mayara Laila


Apesar de viver um momento histórico no último ano, o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, sinalizou, ainda em 2020, que o carnaval do próximo ano deveria ser cancelado. Mesmo com a declaração, muitos foliões tinham expectativas de que a festa acontecesse.



Internautas do Twitter repercutem sobre o carnaval de rua em Belo Horizonte.


Diferente de muitos, Igor Freitas, 22, já esperava que a festa não aconteceria. O estudante de Direito, que frequenta o carnaval de BH desde 2015, não criou expectativas sobre o evento. “Eu já imaginava que esse ano não ia ter nada mesmo, até porque uma pandemia não some assim do nada”. Para ele, o momento é de minimizar as consequências causadas pela pandemia e deixar para festejar depois. “Triste a gente fica né, só que acho que um ano sem carnaval não vai matar ninguém. Primeiro colocar a saúde em primeiro lugar, depois vem a festa. Bom que a gente aproveita e curte o dobro ou o triplo nos próximos anos que tiverem”.



Igor Freitas e amigos durante o carnaval de Belo Horizonte em 2020. Arquivo pessoal.



O cancelamento do carnaval em 2021 também foi devastador no quesito financeiro. Segundo Kerison, a falta de fluxo de caixa com a não realização das festividades e o pouco incentivo da prefeitura municipal podem ser fatais para a continuidade dos blocos na capital mineira. “Infelizmente, não estamos conseguindo nos manter. Não recebemos subsídio algum por parte da prefeitura ou de qualquer outro incentivo, e isso tem grande impacto. Músicos e outras pessoas envolvidas no carnaval hoje estão tendo que mudar de profissão, de cidade, por que estão passando fome. A verdade é que não estamos conseguindo nos manter”, afirma.

Em busca de uma solução para continuar na ativa, os blocos de rua e escola de sambas utilizaram das redes produção de conteúdo via redes sociais, como posts e lives, para se manterem visíveis. E foi essa a alternativa que Aricelli e demais integrantes do bloco Afro Angola Janga acharam para que os foliões pudessem se reunir, de um jeito diferente, mas sem deixar o carnaval passar sem ser comemorado, mesmo que virtualmente. “Promovemos atividades virtuais durante o período de carnaval, foi uma forma de matar a saudade e para o momento que tanto amamos ser vivido da forma que é possível hoje. Foi muito bacana, com muita interação, principalmente no Instagram do bloco”, conta.

Mas nem todos os blocos têm essa oportunidade. Para Kerison, a falta de recursos gerada pela pandemia acaba inviabilizando essa opção. “As ações nas redes sociais são fundamentais, já que não podemos nos aglomerar, mas pelo fato de termos gastos com equipamento e pagamento de cachês, para fazer algo mais profissional, acaba que poucos blocos tiveram condições de fazer”, avalia.

O diretor da Escola de Samba Cidade Jardim ainda afirma que esse momento sombrio causado pela pandemia pode barrar o crescimento do carnaval em BH. “As dificuldades que estamos enfrentando vão ter grandes reflexos nos próximos anos. Vínhamos de uma ascensão muito grande, mas vamos ser muito prejudicados no futuro que virá”, diz.


O futuro a Deus pertence


Se antes as expectativas eram de que o carnaval alcançasse cada vez mais foliões e seguisse batendo recordes, hoje o pensamento é outro. Para Kerison, não é possível saber as consequências pós pandemia. “É imprevisível o que vai ser depois da pandemia, porque de uma coisa eu tenho certeza, não vai ser mais desse tamanho. Primeiro, porque vai ter uma crise financeira grave, que já estamos, e isso dificulta a vinda de turistas. Segundo, nós vamos ter um pouco de fobia de aglomeração, estamos já acostumados em ficar um pouco mais isolados. Eu acho que não vai seguir batendo recorde, vai ter uma redução”. Ele finaliza afirmando que a Prefeitura de Belo Horizonte poderia ajudar mais os integrantes dos blocos de rua, escolas de samba e blocos caricatos. “Teria que ter alguma política para manter os artistas, músicos e produtores do carnaval”.



Kerison Lopes representando Belchior durante desfile em 2018. Instagram


Já Aricelli acredita que, mesmo com as dificuldades e desafios para colocar os blocos na rua, o carnaval de Belorizontino ainda vai continuar crescendo. “Pelas características que a folia daqui carrega, a tendência é só crescer. E creio que, mesmo com tudo contra, seguiremos firmes na luta e estaremos lá, colocando nossos blocos na rua. É o que eu desejo e o que eu espero”, conta.


A indefinição sobre a continuidade das festividades também toma conta de foliões que já estavam se acostumando a liberar suas agendas para curtir o carnaval. A empreendedora Letícia Raquel, de 25 anos, é um exemplo disso. Para ela, o cancelamento da edição deste ano e a falta de uma mudança do cenário de saúde no país devido a pandemia, diminuem ainda mais a esperança para que as festas aconteçam. “ Não acredito que haverá carnaval ano que vem, minhas expectativas estão muito baixas enquanto a isso. Com o tempo passando, acho que não tenho mais o mesmo ânimo para me envolver como fazia antigamente”, diz.

Em meio a incerteza dos blocos e o medo dos foliões sobre o futuro, a saudade agora é do que já foi vivido, e a esperança é que tudo possa voltar ao que antes era normal.




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